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Catador de recicláveis ensina o valor dos livros

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Há três semanas, Marcos Guastt frequenta diariamente a Biblioteca Municipal de Registro em busca de novos conhecimentos

catador-de-reciclaveis-ensina-o-valor-dos-livros-1Desde que saiu da casa dos pais em Sete Lagoas (MG), há 20 anos, Marcos Guastt (40) já percorreu dezenas de cidades pelas regiões Sul e Sudeste do País. Mas é nos livros que ele encontra verdadeiro refúgio. “Se eu não ler, fico doente”, revela o catador de recicláveis que há três semanas mudou a rotina da Biblioteca Municipal de Registro e chamou a atenção da bibliotecária Bruna Orgler Schiavi. “Ele vem todos os dias e passa a tarde lendo. Desde que comecei a ter contato com ele, passamos pelo menos uma hora por dia conversando. O Marcos tem muitas histórias para contar”, diz Bruna.

Histórias e sabedoria. “Aqui dentro (da Biblioteca) eu sou uma pessoa diferente. Lá fora, sou só mais um catador de latinhas, preto e pobre. Lá fora é assim que as pessoas me veem”. Sobra preconceito e falta leitura aos brasileiros. Não para Marcos, que há muito tempo perdeu as contas de quantos livros já leu – foram centenas, com certeza. Só em Registro, em três semanas ele ‘devorou’ seis títulos. “Sou kardecista, então gosto de ler livros espíritas. Prefiro também os de psicologia, biografias e de outras religiões. Leio um pouco de Economia, Arquitetura, só não gosto de Direito”, revela o catador.

Televisão? Há pelo menos 10 anos não assiste. Internet? Sem conteúdo. “A Internet é uma tecnologia fabulosa. Mas o livro...ahh o livro é muito mais sofisticado em termos de ideias. Nem todos, claro. Mas com o tempo você descobre os bons autores, as boas editoras. A vantagem da Internet está na velocidade”.

Marcos conta que começou a ler na adolescência, aos 12 para 13 anos. “Comecei lendo jornal diariamente. Aos 15 anos, passei a frequentar bibliotecas, mas lia livros de forma esporádica. Foi nos 25 anos que engatei mesmo no livro”, confidencia. Por problemas familiares, ele decidiu sair pelo mundo. “Estou procurando até hoje um lugar melhor. Assim como Moisés, ainda estou em busca da minha terra prometida”.

Em suas andanças, as bibliotecas são sempre parada obrigatória. Questionado sobre os livros que mais marcaram sua vida, ele responde com outra pergunta: “Você quer saber os livros que me fizeram chorar? Ahh foram muitos, muitos mesmo”. Dos que conseguiu lembrar, destacou: “O Evangelho de Buda” (Yogi Kharishnanda), “Bíblia”, “Paulo Estevão” e “Há Dois Mil Anos Atrás” (Chico Xavier), “Beleza Negra” (Anna Sewell), “Marley e Eu” (John Grogan), “A Sabedoria de Confúcio”, “A Arte da Felicidade” (Dalai Lama), “A Arte da Guerra” (Sun Tzu), além das biografias de Hitler, Stalin, Abraham Lincoln e Gandhi.

Morando com um tio em Registro há cinco semanas, Marcos não planeja ficar na cidade por muito tempo. “Estou com o pé machucado e ainda não posso caminhar muito. Assim que melhorar, vejo para onde vou novamente”. Enquanto isso, vai continuar passando as tardes na Biblioteca. “Aproveito esse horário porque o sol é muito quente para catar recicláveis. A estrutura aqui é boa e para melhorar ainda mais o pessoal precisa vir aqui”.

 

LIÇÕES DE UM LEITOR

“Quanto mais você estuda, menos você valoriza o dinheiro. O conhecimento amplia a sua visão das coisas”.

“Em todas as bibliotecas que já passei não tinha quase ninguém, não é só aqui. A estrutura é boa e para melhorar ainda mais o pessoal precisa vir aqui”.

“As pessoas precisam aprender a ter concentração, não só para a leitura. E o celular tira a concentração. Precisamos ter concentração para tudo, até mesmo para comer, para que possamos saborear os alimentos. Em tudo precisamos de concentração para fazer bem feito”.

“A Internet é uma tecnologia fabulosa. Mas o livro...ahh o livro é muito mais sofisticado em termos de ideias. Nem todos, claro. Mas com o tempo você descobre os bons autores, as boas editoras. A vantagem da Internet está na velocidade”.

A BIBLIOTECA

Endereço:Rua Maria Aparecida Nunes de Faria, 112, Jardim Planalto (próximo ao Ginásio Mario Covas).
Horário de funcionamento:segunda à sexta-feira, das 8 às 12h e das 13h30 às 17h30.
Telefone:(13) 3821-3312
Bibliotecária:Bruna Orgler Schiavi
Acervo:cerca de 7 mil exemplares